Em resumo
Earn-out é a parte do preço de venda de uma empresa que só é paga se ela atingir metas depois do fechamento, como receita ou lucro em determinados anos. Ele aproxima comprador e vendedor quando discordam sobre o valor do negócio. O risco está no cálculo: depois da venda, quem administra a empresa é o comprador, e as regras de apuração, as proteções do vendedor e o tratamento tributário precisam estar escritos no contrato.
Três perguntas sobre a venda da sua empresa
Pergunta 1 de 3
Vocês negociam, ou pretendem negociar, a venda da empresa com parte do preço condicionada a resultados futuros?
Quase toda venda de empresa esbarra na mesma diferença. O vendedor olha para o futuro que construiu e pede um preço que reflita esse potencial. O comprador olha para o risco de esse futuro não acontecer e oferece menos. Quando a distância é grande, a negociação trava.
O earn-out resolve essa distância transferindo parte do preço para depois: se o futuro que o vendedor promete acontecer, ele recebe; se não acontecer, o comprador não paga. A ideia é simples, e por isso muito usada. A execução é que costuma gerar disputas. Este artigo mostra quando o earn-out faz sentido, como escolher a métrica, onde nascem os conflitos, como o vendedor se protege, o cuidado com a permanência dele na empresa e como a parcela é tributada.
Como o earn-out funciona na prática?
O preço é dividido em duas partes: uma parcela fixa, paga no fechamento ou em parcelas, e uma parcela condicionada, paga se a empresa atingir metas definidas num período, em geral de um a três anos.
Um exemplo. O comprador avalia a empresa em R$ 8 milhões; o vendedor, em R$ 12 milhões, por causa de um crescimento que ainda não apareceu nos números. As partes fecham em R$ 8 milhões no fechamento, mais até R$ 4 milhões em três anos, conforme o resultado operacional da empresa:
| Ano | Meta de resultado operacional | Parcela se a meta for atingida |
|---|---|---|
| 1 | R$ 1,5 milhão | R$ 1 milhão |
| 2 | R$ 1,8 milhão | R$ 1,5 milhão |
| 3 | R$ 2,2 milhões | R$ 1,5 milhão |
Se o crescimento acontecer, o vendedor recebe os R$ 12 milhões que pedia. Se não acontecer, o comprador pagou o valor que considerava justo. No meio do caminho, o contrato pode prever pagamento proporcional, por exemplo metade da parcela se a empresa atingir 90% da meta, e compensação entre anos, para que um ano abaixo da meta possa ser recuperado no seguinte.
O earn-out costuma aparecer já na carta de intenções, como explicado em term sheet, e faz parte das condições de pagamento tratadas em como vender uma empresa. Os métodos de avaliação que explicam a diferença entre os dois números estão em valuation e cap table.
Earn-out ou outra forma de lidar com a diferença de preço?
O earn-out não é a única ferramenta para aproximar comprador e vendedor. Cada alternativa distribui o risco de um jeito diferente.
| Mecanismo | Como funciona | Quem assume o risco |
|---|---|---|
| Pagamento parcelado | O preço é fixo, mas pago ao longo do tempo | O vendedor assume o risco de crédito do comprador |
| Retenção de parte do preço | Uma parcela fica retida, em geral em conta vinculada, para cobrir contingências | O vendedor assume o risco de passivos do passado |
| Earn-out | Parte do preço depende de resultados futuros | O vendedor assume o risco do desempenho futuro, sob gestão do comprador |
| Participação remanescente | O vendedor continua com uma fatia da empresa, com opção de venda ou compra no futuro por um múltiplo combinado | Os dois compartilham o resultado, e o vendedor continua sócio |
| Ajuste de preço no fechamento | O preço é corrigido pela dívida líquida e pelo capital de giro na data do fechamento | Nenhum dos dois, quanto a variações até o fechamento |
A participação remanescente costuma ser uma alternativa ao earn-out quando o vendedor quer manter influência nas decisões: ele continua sócio, com direitos de sócio, em vez de depender de um cálculo feito pelo comprador.
Qual o prazo e qual o tamanho adequados?
Os earn-outs costumam durar de um a três anos. Prazos mais longos aumentam a chance de mudanças na empresa, no mercado e na estratégia do comprador, e com elas a chance de discussão sobre o cálculo. O tamanho também pesa: quanto maior a parcela condicionada em relação ao preço total, maior o risco que o vendedor assume sobre um negócio que ele já não controla. Um earn-out que representa parte relevante do preço justifica proteções mais fortes e, muitas vezes, a permanência do vendedor na gestão durante o período, com as cautelas tratadas mais adiante.
Qual métrica usar?
| Métrica | Vantagem | Risco |
|---|---|---|
| Receita | Fácil de medir e menos sujeita a decisões contábeis | Pode crescer com vendas de margem baixa que não geram valor |
| Resultado operacional ou lucro | Reflete a rentabilidade que o comprador quer | Depende de custos que o comprador controla, como despesas de integração e rateios do grupo |
| Marcos operacionais | Objetivos e fáceis de verificar, como a renovação de um contrato ou uma aprovação regulatória | Tudo ou nada, sem pagamento parcial |
| Indicadores de clientes | Úteis quando o valor está na base de clientes | Definições de cliente ativo e de perda precisam ser precisas |
A métrica mais adequada é a que o vendedor consegue influenciar e que o comprador não consegue manipular com facilidade. Qualquer que seja a escolha, o contrato precisa definir as regras contábeis usadas no cálculo, os ajustes permitidos e o que fica de fora, como custos de integração e despesas impostas pelo grupo comprador.
Onde nascem os conflitos?
Depois do fechamento, quem decide é o comprador. Ele pode integrar a empresa a outras do grupo, mudar preços, cortar investimentos, transferir clientes ou alocar custos corporativos. Cada uma dessas decisões pode ser legítima para o negócio e, ao mesmo tempo, reduzir a métrica do earn-out.
O Código Civil considera verificada a condição quando o seu cumprimento é maliciosamente impedido pela parte a quem desfavorece (art. 129). Essa regra ajuda nos casos extremos, mas provar a malícia é difícil, e a maior parte das decisões que afetam o earn-out não é maliciosa. Por isso, a proteção precisa estar no contrato.
Como o vendedor se protege?
| Proteção | O que faz |
|---|---|
| Regras de cálculo detalhadas | Definem a base contábil, os ajustes e o que não entra na métrica |
| Obrigações de condução do negócio | O comprador se compromete a manter a operação de forma consistente durante o período, sem decisões destinadas a reduzir a métrica |
| Direito de informação | O vendedor recebe os números e pode conferir o cálculo |
| Procedimento para divergências | Prazo para contestar o cálculo e um contador independente para decidir |
| Antecipação | O earn-out é pago integralmente se o comprador vender a empresa, integrá-la de forma que impeça a medição ou desligar o vendedor sem justa causa |
| Limite de compensação | Define se o comprador pode descontar do earn-out valores de indenização, e em que condições |
| Conta vinculada ou aval do grupo | Assegura que o dinheiro existirá quando a parcela vencer |
O comprador, por sua vez, costuma pedir a possibilidade de compensar do earn-out as indenizações devidas por contingências encontradas depois do fechamento. Os achados que dão origem a essas indenizações costumam começar na due diligence societária, e a negociação desse ponto é tão importante quanto a da meta.
E quando o vendedor continua trabalhando na empresa?
É comum que o comprador exija a permanência do vendedor por um período de transição, justamente porque o resultado depende dele. Nesse caso, surge um risco: se o pagamento do earn-out estiver condicionado à permanência do vendedor como empregado ou administrador, ele pode ser lido como remuneração pelo trabalho, e não como parte do preço das quotas, com efeitos tributários e trabalhistas diferentes.
A forma de reduzir esse risco é separar as duas coisas. O trabalho do vendedor depois da venda é remunerado por salário ou pró-labore compatível com a função, e o earn-out é vinculado ao desempenho da empresa, e não à permanência do vendedor. A diferença entre remunerar o trabalho e o capital está em pró-labore ou distribuição de lucros. A não concorrência do vendedor depois da saída, que costuma acompanhar o earn-out, tem os limites tratados em não concorrência entre sócios.
Como o earn-out é tributado?
Para o vendedor pessoa física, o earn-out é parte do preço das quotas e, portanto, ganho de capital, tributado de 15% a 22,5% conforme o valor do ganho (Lei 13.259/2016). A dúvida sempre foi como calcular o imposto quando a parcela chega anos depois.
Em 2023, a Receita Federal entendia que a parcela condicionada deveria ser somada ao preço original, com o recálculo do ganho total, o que tendia a levar o earn-out às faixas mais altas da tabela (Solução de Consulta Cosit 82/2023). Em 2026, segundo a leitura de mercado sobre a Solução de Consulta Cosit 96/2026, a Receita passou a tratar o recebimento da parcela condicionada como um novo fato gerador, com nova aplicação da tabela progressiva, o que tende a reduzir o imposto em operações maiores. Valores retidos em conta vinculada, por sua vez, só são tributados quando ficam efetivamente disponíveis ao vendedor, segundo entendimento antigo da própria Receita.
Quando a vendedora é uma pessoa jurídica, o tratamento segue o regime tributário dela, e o reconhecimento contábil da parcela condicionada tem regras próprias. Em qualquer caso, a estrutura do earn-out precisa ser desenhada junto com a contabilidade, antes da assinatura.
O earn-out é uma das ferramentas do fim de uma trajetória de crescimento que, muitas vezes, passou pela entrada de investidores, tema de como receber aporte.
O earn-out costuma ser combinado com outras formas de pagamento: a retenção de parte do preço em conta escrow, as parcelas fixas da venda parcelada de empresa e o ajuste de preço feito no fechamento. A diferença entre o preço condicionado a metas e a indenização por dívidas antigas está em passivo oculto.
Por onde começar
Se vocês estão negociando a venda da empresa com parte do preço condicionada a resultados, vale conferir se as regras de cálculo e as proteções estão à altura do valor em jogo antes de assinar. O Diagnóstico de Risco Societário é uma conversa de 60 minutos por vídeo que mapeia a situação da sociedade e aponta os pontos de maior exposição.
Este conteúdo é informativo e reflete a legislação vigente na data de atualização. Ele não substitui a análise da situação concreta de cada sociedade.
Perguntas frequentes
É a parcela do preço de venda de uma empresa que só é paga se ela atingir metas definidas depois do fechamento, como receita, lucro ou marcos operacionais, num período combinado.
Quando comprador e vendedor discordam sobre o valor da empresa, em geral porque o vendedor aposta num crescimento que ainda não aparece nos números. O earn-out transfere essa diferença para depois.
A que o vendedor consegue influenciar e que o comprador não consegue manipular com facilidade. Receita é mais objetiva; lucro reflete melhor o valor, mas depende de regras contábeis detalhadas no contrato.
Em geral, de um a três anos. Prazos mais longos aumentam a exposição do vendedor a mudanças que ele não controla e a chance de divergência sobre o cálculo.
Pode afetá-lo, porque passa a administrar a empresa. Por isso, o contrato deve prever regras de cálculo, obrigações de condução do negócio, direito de informação e antecipação do pagamento em certas situações.
Para o vendedor pessoa física, como ganho de capital. Em 2026, segundo a leitura de mercado sobre a Solução de Consulta Cosit 96/2026, a Receita passou a tratar cada parcela recebida como novo fato gerador, com nova aplicação da tabela progressiva.
Pode, se estiver condicionado à permanência do vendedor como empregado ou administrador. O mais seguro é remunerar o trabalho separadamente e vincular o earn-out ao desempenho da empresa.
Fontes
- Código Civil (Lei 10.406/2002), texto compilado: art. 129.
- Lei 13.259/2016: alíquotas do ganho de capital.
- Startups.com.br: a nova interpretação da Receita Federal para o cálculo do earn-out (Solução de Consulta Cosit 96/2026).
- Consultor Jurídico: tributação de valores em conta vinculada na venda de participações.
- Capital Aberto: o risco contábil e trabalhista do earn-out ligado à permanência do vendedor.
Gabriel Serafin