Em resumo
O term sheet, ou carta de termos, é o documento que resume os pontos principais de um investimento ou de uma venda antes dos contratos definitivos: valor, participação, direitos do investidor e condições para fechar. Em regra, ele não obriga ninguém a concluir o negócio, mas algumas cláusulas, como exclusividade e confidencialidade, costumam valer desde a assinatura. É nele que se negocia a maior parte do que vai valer depois.
Três perguntas sobre a sua sociedade
Pergunta 1 de 3
A sua empresa recebeu, ou está perto de receber, um term sheet de algum investidor?
O term sheet costuma chegar como uma boa notícia: um investidor quer entrar na empresa e colocou a proposta no papel. São duas ou três páginas, escritas em linguagem de mercado, cheias de termos em inglês. A tentação é assinar rápido, porque "não é vinculante" e porque os detalhes ficam para o contrato.
Esse é o erro mais comum. Os contratos definitivos detalham o term sheet, mas raramente o desfazem. O que foi aceito na carta de termos vira o ponto de partida, e reabrir um tema depois tem custo de negociação e de confiança. Este artigo mostra onde o term sheet entra na operação, o que ele já obriga, quais são os termos econômicos e de controle, com exemplos numéricos, e o que observar antes de assinar.
Onde o term sheet entra na operação?
| Etapa | O que acontece |
|---|---|
| Primeiras conversas | Apresentação da empresa, em geral com acordo de confidencialidade |
| Term sheet | As partes alinham os termos principais e, muitas vezes, uma exclusividade de negociação |
| Due diligence | O investidor examina a empresa: documentos societários, contratos, passivos, tecnologia |
| Contratos definitivos | Contrato de investimento, alteração do contrato social ou estatuto e acordo de sócios ou de acionistas |
| Fechamento | O dinheiro entra, e as quotas ou ações são emitidas ou transferidas |
O mesmo documento aparece na venda de empresas, muitas vezes com o nome de carta de intenções, como explicado em como vender uma empresa. O roteiro completo de uma captação, com os instrumentos possíveis, está em como receber aporte.
O term sheet obriga as partes?
Depende do que está escrito. A prática de mercado é separar dois grupos de cláusulas:
| Cláusulas que costumam ser vinculantes | Cláusulas que costumam não ser vinculantes |
|---|---|
| Confidencialidade sobre a negociação e as informações recebidas | Valor e participação |
| Exclusividade, que impede a empresa de negociar com outros investidores por um período | Direitos do investidor, como vetos e assentos na administração |
| Divisão de custos com assessores | Condições dos contratos definitivos |
| Lei aplicável e forma de resolver divergências | Obrigação de concluir o negócio |
Três cuidados evitam surpresas. O primeiro é dizer expressamente quais cláusulas vinculam e quais não. O segundo é não transformar o term sheet num contrato preliminar sem querer: um documento que já traz todos os elementos essenciais do negócio, sem cláusula de arrependimento, pode permitir que uma parte exija a celebração do contrato definitivo (arts. 462 e 463 do Código Civil). O terceiro é lembrar que, mesmo sem obrigação de fechar, as partes devem negociar de boa-fé (art. 422), e o rompimento abusivo de uma negociação avançada pode gerar dever de indenizar.
Quais são os termos econômicos?
| Termo | O que define |
|---|---|
| Valor do aporte | Quanto o investidor coloca |
| Valuation antes do aporte | Quanto a empresa vale antes do dinheiro novo, e portanto quanto do capital o investidor recebe |
| Instrumento | Se o investidor entra como sócio desde já ou por um instrumento conversível, como mútuo conversível ou SAFE no Brasil |
| Reserva para plano de opções | Quanto do capital fica reservado para executivos, e se essa reserva sai antes ou depois do dinheiro novo |
| Preferência de liquidação | Quem recebe primeiro numa venda ou encerramento, e quanto |
| Proteção contra diluição | O que acontece com a participação do investidor se uma rodada futura tiver preço menor |
O valuation, porém, não pode ser lido isoladamente. Ele é negociado junto com os demais termos, e uma proposta com número mais alto pode valer menos para os fundadores do que outra com número menor e termos mais simples. Por isso, o exercício útil não é comparar valuations, mas simular quanto cada sócio recebe em alguns cenários de venda e de nova rodada, com todos os termos aplicados.
Dois termos costumam mudar o resultado mais do que o próprio valuation. O primeiro é a reserva para o plano de opções. Numa proposta de R$ 2 milhões com valuation de R$ 8 milhões antes do aporte, o investidor fica com 20%. Se o term sheet exigir uma reserva de 10% do capital criada antes do aporte, ela sai da parte dos fundadores, que passam de 80% para 70%. Na prática, o valuation efetivo para os fundadores cai de R$ 8 milhões para R$ 7 milhões. O efeito dessas reservas no quadro de sócios está em valuation e cap table.
O segundo é a preferência de liquidação. Na mesma empresa, suponha uma venda por R$ 6 milhões:
| Tipo de preferência | O investidor recebe | Fundadores e demais sócios recebem |
|---|---|---|
| Uma vez o valor investido, sem participação adicional | R$ 2 milhões, porque é mais que os 20% de R$ 6 milhões | R$ 4 milhões |
| Uma vez o valor investido, com participação no restante | R$ 2 milhões mais 20% dos R$ 4 milhões restantes, R$ 2,8 milhões | R$ 3,2 milhões |
| Sem preferência | 20% de R$ 6 milhões, R$ 1,2 milhão | R$ 4,8 milhões |
Na proteção contra diluição, a diferença também é grande. Suponha que a próxima rodada saia pela metade do preço pago pelo investidor. No ajuste integral, toda a participação dele é recalculada como se tivesse pago o novo preço: os mesmos R$ 2 milhões passam a corresponder ao dobro de quotas ou ações, e a diferença sai da participação dos fundadores. Na média ponderada, o ajuste considera o tamanho da nova rodada: uma rodada pequena com preço menor gera um ajuste pequeno, e uma rodada grande, um ajuste maior. A média ponderada é a fórmula mais comum em rodadas equilibradas; o ajuste integral costuma aparecer quando o investidor tem muito poder de negociação.
A proposta costuma vir do investidor, mas nada impede os fundadores de apresentar a sua própria versão ou de responder com uma contraproposta completa, em vez de comentários pontuais. Quem redige a primeira versão define a estrutura da conversa.
Quais são os termos de controle?
| Termo | O que define |
|---|---|
| Administração | Se o investidor indica administradores ou membros de conselho, e quantos |
| Matérias protegidas | Quais decisões dependem da concordância do investidor, como novas rodadas, venda de ativos e endividamento |
| Informação | Relatórios e acesso a números que o investidor recebe |
| Vesting dos fundadores | Se as quotas ou ações dos fundadores passam a ser adquiridas ao longo do tempo |
| Dedicação e não concorrência | O que os fundadores se comprometem a fazer, e a não fazer |
| Venda de participações | Preferência, venda conjunta e obrigação de venda conjunta |
| Rodadas futuras | Direito do investidor de acompanhar novas rodadas para manter a participação |
O equilíbrio entre proteção do investidor e liberdade de gestão está em como não perder o controle da empresa ao receber aporte. As regras de venda conjunta, em tag along e drag along, e a aquisição gradual das participações dos fundadores, em vesting.
Quais condições costumam ser exigidas para o fechamento?
O term sheet também lista o que precisa acontecer antes de o dinheiro entrar. As condições mais comuns são a conclusão da due diligence sem achados relevantes, a regularização de pendências societárias, a assinatura do acordo de sócios ou de acionistas e, com frequência, a transformação da limitada em S.A. Os pontos que a due diligence costuma examinar estão em due diligence societária, e a transformação, em transformar Ltda em S.A..
Quando a empresa já sabe que tem pendências, como um sócio que saiu sem alteração registrada ou uma marca em nome de um fundador, vale revelá-las e tratá-las como condição de fechamento no próprio term sheet. Um achado revelado pela empresa é um item da lista; o mesmo achado descoberto pelo investidor vira desconfiança.
E quando o term sheet é de uma venda da empresa?
Na venda, a carta de termos trata de outros pontos. Em vez de valuation antes do aporte e preferência de liquidação, ela define o preço e o mecanismo de ajuste desse preço no fechamento, em geral pela dívida líquida e pelo capital de giro; a parcela do preço que fica retida para cobrir contingências; eventuais parcelas condicionadas a resultados futuros; a permanência dos vendedores na empresa por um período de transição; e a não concorrência depois da venda. As parcelas condicionadas a resultados, que resolvem divergências sobre o valor da empresa, estão em earn-out.
O que observar antes de assinar?
| Ponto | O que conferir |
|---|---|
| Exclusividade | Prazo compatível com a due diligence, e saída se o investidor não avançar no cronograma |
| Separação entre vinculante e não vinculante | Escrita de forma expressa |
| Preferência e proteção contra diluição | Fórmulas e efeitos simulados em cenários de venda e de rodada com preço menor |
| Reserva para opções | Tamanho e momento da criação, antes ou depois do aporte |
| Matérias protegidas | Lista fechada, ligada a decisões realmente relevantes |
| Custos | Quem paga os assessores do investidor, e com que limite |
| Quem assina | Se o investidor vai entrar por um fundo, uma holding ou um veículo próprio, quem é a parte |
Alguns termos do term sheet têm artigos próprios: a ordem de recebimento numa venda, em preferência de liquidação; a proteção contra rodadas a preço menor, em cláusula antidiluição; o prazo em que os fundadores não podem vender, em cláusula de lock-up; e a exigência de uma holding no exterior, em flip de startup. Na compra e venda de empresas, o documento equivalente costuma se chamar carta de intenções.
Por onde começar
Se vocês receberam uma carta de termos, ou estão perto de receber, vale entender o que cada cláusula significa para o controle e para o valor que os fundadores levam, antes de assinar. O Diagnóstico de Risco Societário é uma conversa de 60 minutos por vídeo que mapeia a situação da sociedade e aponta os pontos de maior exposição.
Este conteúdo é informativo e reflete a legislação vigente na data de atualização. Ele não substitui a análise da situação concreta de cada sociedade.
Perguntas frequentes
É a carta de termos que resume os pontos principais de um investimento ou de uma venda, como valor, participação, direitos do investidor e condições de fechamento, antes dos contratos definitivos.
Em regra, os termos econômicos e a obrigação de fechar o negócio não são vinculantes. Confidencialidade, exclusividade, custos e lei aplicável costumam ser. O documento deve dizer isso expressamente.
É o compromisso de a empresa não negociar com outros investidores ou compradores por um período. Deve ter prazo compatível com a due diligence e prever saída se o investidor não avançar.
É o direito do investidor de receber primeiro numa venda ou encerramento da empresa, em geral até o valor investido. Pode ser com ou sem participação no valor que sobrar para os demais sócios.
Em regra, pode, porque a obrigação de fechar não é vinculante. Mas as partes devem negociar de boa-fé, e o rompimento abusivo de uma negociação avançada pode gerar dever de indenizar.
Na prática, os nomes são usados como sinônimos. O que importa é o conteúdo: quais termos estão definidos, quais cláusulas são vinculantes e se o documento pode ser lido como contrato preliminar.
A lei não exige, mas os termos definidos na carta costumam ser mantidos nos contratos definitivos. Por isso, é na carta que a revisão tem mais efeito.
Gabriel Serafin