Em resumo
Valuation é a estimativa de quanto a empresa vale, e cap table é o quadro que mostra quem é dono de quanto, inclusive das participações que ainda podem surgir, como opções e instrumentos conversíveis. Numa rodada, os dois andam juntos: o valuation define o preço, e o cap table mostra a diluição que esse preço causa. O erro mais comum é negociar o valor anunciado da empresa sem olhar o quadro totalmente diluído.
Três perguntas sobre a sua sociedade
Pergunta 1 de 3
A sua empresa está negociando, ou pretende negociar em breve, uma rodada de investimento?
Valuation e cap table costumam aparecer juntos na primeira conversa com um investidor, e costumam ser tratados como assuntos de planilha. São mais do que isso. O valuation define quanto da empresa cada real compra. O cap table registra o resultado dessa conta, rodada após rodada, e revela participações que ninguém lembrava de ter prometido.
Este artigo mostra os métodos de avaliação mais usados, o efeito do pool de opções sobre o valor efetivo, como montar um cap table totalmente diluído e onde ele tem valor jurídico. O caminho completo de uma rodada está em como receber aporte.
O que é valuation?
Valuation é a estimativa do valor da empresa. Não existe um número único e verdadeiro: existem métodos, premissas e uma negociação. O valor que aparece numa rodada é o ponto em que o preço pedido pelos sócios e o preço aceito pelo investidor se encontram.
A própria Lei das S.A. indica as bases para fixar o preço de novas ações num aumento de capital: a perspectiva de rentabilidade da companhia, o valor do patrimônio líquido da ação e, se houver, a cotação em mercado. O preço não pode causar diluição injustificada dos acionistas antigos, e a proposta precisa justificar o critério escolhido (art. 170, §§1º e 7º). Na limitada não há regra equivalente, mas a lógica é a mesma: o critério precisa ser explicado e registrado.
Quais são os métodos de valuation?
| Método | Como funciona | Quando costuma ser usado | Limite |
|---|---|---|---|
| Patrimonial | Valor dos bens e direitos menos as dívidas, contábil ou ajustado a mercado | Empresas com muitos ativos, holdings e saída de sócio | Ignora a capacidade de gerar caixa no futuro |
| Múltiplos | Receita ou resultado multiplicado por um fator observado em empresas comparáveis | PMEs com resultado estável e compra e venda de empresas | Depende de comparáveis confiáveis |
| Fluxo de caixa descontado | Caixa que a empresa vai gerar, trazido a valor presente por uma taxa que reflete o risco | Empresas com histórico e previsibilidade | Muito sensível às premissas |
| Método de venture capital | Valor esperado na saída dividido pelo retorno que o investidor busca | Startups em estágio inicial | Depende de uma saída hipotética |
| Rodadas e transações anteriores | Preço de negócios parecidos ou da última rodada | Rodadas seguintes | Nem sempre há dados comparáveis |
Na saída de um sócio sem regra no contrato social, a lei usa um método próprio, o balanço de determinação (art. 606 do CPC), tema de apuração de haveres.
Um exemplo: o método de venture capital
Uma startup projeta ser vendida por R$ 100 milhões em seis anos. O investidor busca um retorno de 10 vezes o capital nesse prazo e vai aportar R$ 2 milhões:
| Etapa | Valor |
|---|---|
| Valor esperado na saída | R$ 100 milhões |
| Retorno buscado pelo investidor | 10 vezes |
| Valor da empresa depois do aporte (pós-money) | R$ 10 milhões |
| Aporte | R$ 2 milhões |
| Participação do investidor | 20% |
| Valor da empresa antes do aporte (pré-money) | R$ 8 milhões |
O método é simples, e a simplicidade é o seu limite: a saída de R$ 100 milhões é uma hipótese, e as rodadas futuras vão diluir o investidor. Por isso ele costuma ser usado junto com comparações de mercado.
Como o pool de opções muda o valor efetivo?
O pool de opções é a parcela da empresa reservada para planos de incentivo de executivos e funcionários. Investidores costumam pedir que ele seja criado antes do aporte, no pré-money. Parece um detalhe e muda o valor que os fundadores efetivamente recebem. No mesmo exemplo, com um pool de 10% da empresa depois da rodada:
| Sem pool | Com pool de 10% criado antes do aporte | |
|---|---|---|
| Fundadores | 80% | 70% |
| Investidor | 20% | 20% |
| Pool de opções | 10% | |
| Valor da participação dos fundadores, a R$ 10 milhões | R$ 8 milhões | R$ 7 milhões |
O pré-money anunciado continua sendo R$ 8 milhões, mas a parte dos fundadores vale R$ 7 milhões, porque o pool saiu só da participação deles. Negociar o tamanho do pool, com base num plano real de contratações, pesa tanto quanto negociar o valor. Os planos de incentivo estão em stock options e phantom shares, e a aquisição da participação em etapas, em vesting.
O valor anunciado também não mostra direitos como a preferência de liquidação, que mudam quem recebe quanto numa venda. O tema está em como não perder o controle da empresa ao receber aporte.
Como o valuation vira preço por quota?
O valor da empresa só vira número de quotas ou ações quando é dividido pelo total de participações antes da rodada, já com o pool. No mesmo exemplo:
| Etapa | Valor |
|---|---|
| Pré-money | R$ 8 milhões |
| Quotas antes da rodada, com o pool | 1.000.000, sendo 875.000 dos fundadores e 125.000 do pool |
| Preço por quota | R$ 8 |
| Aporte | R$ 2 milhões |
| Quotas emitidas para o investidor | 250.000 |
| Total depois da rodada | 1.250.000: fundadores com 70%, pool com 10% e investidor com 20% |
É por isso que o pool criado no pré-money pesa tanto: ele entra no número de quotas que divide o valor, e o preço por quota cai para todos os que já estavam na empresa.
O que é cap table e o que ele precisa mostrar?
Cap table, ou quadro de capitalização, é a tabela que mostra quem detém cada participação na empresa. Um cap table útil mostra duas fotografias: a participação emitida, que já existe, e a totalmente diluída, que inclui tudo o que ainda pode virar participação, como opções outorgadas, pool reservado, mútuos conversíveis e contratos semelhantes ao SAFE.
Um exemplo:
| Titular | Participação emitida | % emitido | % totalmente diluído |
|---|---|---|---|
| Fundador A | 450.000 quotas | 45% | 37,5% |
| Fundador B | 450.000 quotas | 45% | 37,5% |
| Investidor-anjo | 100.000 quotas | 10% | 8,3% |
| Pool de opções reservado | 8,3% | ||
| Mútuo conversível, pela estimativa de conversão | 8,3% | ||
| Total | 1.000.000 quotas | 100% | 100%, sobre 1.200.000 quotas |
Os fundadores, que se enxergam com 90%, aparecem com 75% no quadro que o investidor vai usar. A conversão dos mútuos depende dos termos de cada contrato, como mostrado em mútuo conversível; o SAFE está em SAFE no Brasil.
Além dessas colunas, vale registrar a classe de cada participação, o preço pago, a data, o documento de origem e as regras de vesting.
Onde o cap table tem valor jurídico?
O cap table é uma ferramenta de gestão. O registro que vale perante terceiros é outro:
| Tipo | Registro oficial da participação |
|---|---|
| Limitada | O contrato social registrado na Junta Comercial, que indica a quota de cada sócio (art. 997, IV, do Código Civil); qualquer mudança exige alteração averbada |
| S.A. | O livro de registro de ações nominativas: a propriedade se presume pela inscrição do nome do acionista (art. 31 da Lei das S.A.), e a companhia fechada pode manter o livro em meio eletrônico (art. 100, §3º) |
| Opções, mútuos e SAFE | Contratos: só viram participação quando exercidos ou convertidos, com o registro correspondente |
Um cap table que não bate com o contrato social ou com o livro de registro é uma discussão esperando para acontecer. Quando a participação é paga com bens, há outro cuidado: na limitada, todos os sócios respondem juntos, por cinco anos, pela avaliação correta dos bens entregues (art. 1.055, §1º), e na S.A. a avaliação é feita por três peritos ou por empresa especializada (art. 8º). A entrada de sócio com ágio está em como colocar um sócio na empresa.
Quais são os erros mais comuns?
| Erro | Consequência |
|---|---|
| Participação prometida por mensagem ou em reunião, sem documento | Aparece na auditoria do investidor e trava a rodada |
| Cap table só com a participação emitida | Os sócios superestimam o que têm |
| Conversíveis sem simulação | Diluição inesperada na rodada seguinte |
| Pool sem plano de contratações | Diluição maior do que a necessária |
| Participação relevante com sócio que saiu da operação | Investidores enxergam risco e pedem ajustes |
| Planilha diferente do contrato social ou do livro | Discussão sobre quem é dono de quê |
| Critério de valuation sem registro | Discussão na próxima rodada ou na saída de um sócio |
O valuation raramente é negociado sozinho. Na captação, ele vem acompanhado de termos que podem mudar o resultado para os fundadores, explicados em term sheet. Na venda, a diferença entre o valor pedido e o oferecido costuma ser resolvida com parte do preço condicionada a resultados, o earn-out.
O valor da empresa aparece em várias negociações além da rodada. Na venda, ele ainda passa pelo desconto da dívida líquida e pelo acerto do capital de giro antes de virar o preço das quotas, tema de ajuste de preço. E, numa rodada a preço menor que a anterior, o quadro de sócios muda pela cláusula antidiluição.
Por onde começar
Se vocês estão perto de uma rodada, ou nunca montaram o quadro totalmente diluído, vale saber hoje quem é dono de quê antes que o investidor faça a conta. O Diagnóstico de Risco Societário é uma conversa de 60 minutos por vídeo que mapeia a situação da sociedade e aponta os pontos de maior exposição.
Este conteúdo é informativo e reflete a legislação vigente na data de atualização. Ele não substitui a análise da situação concreta de cada sociedade.
Perguntas frequentes
É a tabela que mostra a participação de cada sócio ou acionista na empresa, inclusive as participações que ainda podem surgir, como opções e instrumentos conversíveis.
É a versão do quadro que considera como se todas as opções, o pool reservado e os conversíveis já tivessem virado participação. É a versão que investidores usam para calcular preço e diluição.
Não há um único. Em estágio inicial, são comuns o método de venture capital e a comparação com rodadas parecidas; com histórico e previsibilidade, entram o fluxo de caixa descontado e os múltiplos.
É a parcela da empresa reservada para planos de incentivo. Quando criado antes do aporte, ele reduz apenas a participação dos sócios atuais.
Os sócios e o investidor, na negociação. Métodos e laudos dão base à conversa, e, na S.A., a proposta de aumento de capital precisa justificar o critério usado para o preço das novas ações (art. 170, §7º).
Não. Na limitada, o registro oficial é o contrato social; na S.A., o livro de registro de ações nominativas. O cap table precisa bater com esses registros.
Pré-money é o valor da empresa antes do aporte, e pós-money, depois dele. A participação do investidor é o valor aportado dividido pelo pós-money.
Fontes
- Lei 6.404/1976 (Lei das S.A.), texto consolidado: arts. 8º, 31, 100 e 170.
- Código Civil (Lei 10.406/2002), texto compilado: arts. 997 e 1.055.
- Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015): art. 606.
Gabriel Serafin