Blog
Estrutura entre sócios

Modelo de acordo de sócios: a estrutura do documento e o que um modelo não resolve

Veja a estrutura típica de um modelo de acordo de sócios, as decisões que nenhum modelo toma e os erros mais comuns de quem assina um modelo pronto.

Gabriel SerafinGabriel SerafinOAB/PR 131.16010 min de leituraPublicado em 22 de setembro de 2026

Em resumo

Um modelo de acordo de sócios mostra a estrutura do documento: partes, regras de decisão, remuneração, lucros, entrada e saída de sócios, sucessão, não concorrência e solução de divergências. O que ele não traz são as decisões que dão conteúdo a essas seções, como o critério de valor na saída, os quóruns, o mecanismo de desempate e o destino de cada sócio. O modelo ajuda a entender o documento; as respostas dependem da sociedade concreta.

Três perguntas sobre a sua sociedade

Pergunta 1 de 3

Vocês usaram, ou pensam em usar, um modelo pronto como base para o acordo de sócios da empresa?

Quem procura um modelo de acordo de sócios geralmente já entendeu que precisa de um. É um bom sinal: muitas sociedades funcionam anos sem nenhuma regra escrita além do contrato social e só descobrem a falta quando um sócio quer sair, morre ou deixa de trabalhar.

O modelo resolve bem uma parte do trabalho: mostra quais assuntos o documento costuma cobrir. O problema está no resto. Todo modelo tem lacunas para preencher e escolhas já feitas por alguém que não conhece a sua empresa, e é nas lacunas e nas escolhas que as sociedades se desentendem.

Este artigo mostra a estrutura típica do documento, as decisões que nenhum modelo toma e os erros mais comuns de quem assina um modelo pronto. O conceito completo está no guia sobre acordo de sócios.

O que um modelo de acordo de sócios costuma ter?

A maior parte dos modelos, inclusive os gratuitos encontrados na internet, segue uma estrutura parecida. A coluna da direita mostra o que o modelo deixa para os sócios decidirem:

Seção, O que regula, A decisão que fica com os sócios
SeçãoO que regulaA decisão que fica com os sócios
Partes e definiçõesQuem assina, a sociedade como interveniente e o sentido dos termosQuem precisa assinar para a regra valer para todos
GovernançaReuniões, quóruns e matérias que dependem de aprovação qualificadaQuais decisões exigem mais do que a maioria
Administração e remuneraçãoQuem administra, dedicação e pró-laboreQuanto cada um recebe pelo trabalho e com que dedicação
LucrosDistribuição, retenção e reinvestimentoQue parte do lucro fica na empresa
Transferência de quotasDireito de preferência, tag along, drag along e períodos sem vendaLimiares, preço mínimo e prazos
Entrada de novos sóciosAdesão ao acordo e diluiçãoQuem aprova a entrada e em que condições
SaídaRetirada, exclusão, good leaver e bad leaverO que caracteriza cada tipo de saída e quanto cada uma custa
Valor e pagamentoCritério de avaliação da participação e prazoO método e o calendário de pagamento
SucessãoMorte, incapacidade e divórcioSe os herdeiros entram ou recebem o valor
ImpasseMecanismo de desempateQuem decide quando os sócios empatam
Não concorrência e confidencialidadeO que o sócio não pode fazer durante e depois da sociedadeAtividade, território e prazo
Solução de divergênciasMediação e arbitragemOnde e como as divergências serão decididas

Tag along é o direito de vender junto quando outro sócio vende; drag along, o de obrigar os demais a vender junto numa venda da empresa. Good leaver e bad leaver são as saídas em boas ou más condições, com efeitos diferentes sobre o valor. O catálogo completo, com as opções de cada cláusula, está em cláusulas do acordo de sócios.

As decisões que nenhum modelo toma

Um modelo pode trazer a frase certa com o número errado. As decisões abaixo mudam o resultado da sociedade, e nenhuma delas pode ser copiada de outra empresa.

Critério de valor na saída

Imagine uma empresa com patrimônio líquido contábil de R$ 1 milhão, patrimônio de R$ 1,6 milhão com os bens avaliados a valor de mercado e lucro anual de R$ 600 mil. Um sócio com 25% sai. Conforme o critério escrito no acordo:

Critério, Base de cálculo, Valor dos 25%
CritérioBase de cálculoValor dos 25%
Patrimônio líquido contábil do último balançoR$ 1.000.000R$ 250.000
Balanço de determinação, a valor de mercadoR$ 1.600.000R$ 400.000
Múltiplo de 5 vezes o lucro anualR$ 3.000.000R$ 750.000

Os três critérios são usados na prática, e a diferença entre o primeiro e o terceiro é de R$ 500 mil para a mesma participação. Um modelo que fala apenas em "valor patrimonial" não diz nem qual das duas primeiras linhas vale. No silêncio do contrato social, vale a segunda: o balanço de determinação (art. 1.031 do Código Civil e art. 606 do CPC).

Prazo e forma de pagamento

R$ 400 mil em 90 dias e R$ 400 mil em 36 parcelas corrigidas são negócios diferentes, para quem sai e para o caixa de quem fica. Sem regra, o padrão da lei é o pagamento em dinheiro em 90 dias (art. 1.031, §2º).

Quóruns e matérias reservadas

Um modelo pode exigir três quartos do capital para certas decisões. Com sócios de 60% e 40%, isso dá ao minoritário poder de veto sobre tudo o que estiver na lista. A lista precisa ser feita para a sociedade de vocês.

Desempate

Com sócios de 50%, a pergunta não é se haverá empate, e sim quando. O mecanismo adequado depende do tipo de divergência, como mostrado em impasse entre sócios.

Dedicação, pró-labore e vesting

Quem trabalha em tempo integral e quem só aportou capital precisam de regras diferentes. Vesting, a aquisição da participação em etapas, e cliff, a carência antes da primeira etapa, só funcionam com prazos e metas escolhidos para a realidade da empresa.

Saída e sucessão

O que acontece se um sócio quer sair, é afastado ou morre. As regras da lei para cada caso estão em sócio quer sair da empresa e em morte de sócio. Sem cláusula, a quota do sócio que morre é liquidada e paga aos herdeiros (art. 1.028).

Um modelo de acordo de acionistas serve para a limitada?

Não sem adaptação. O acordo de acionistas é regulado pela Lei das S.A. (art. 118), que prevê, por exemplo, que o voto dado contra o acordo arquivado não é computado. Na limitada, o acordo é um contrato atípico, admitido pelo Código Civil (art. 425), e a aplicação das regras da Lei das S.A. depende de o contrato social adotá-la como regência supletiva (art. 1.053, parágrafo único).

O mesmo vale para modelos traduzidos de outros países. Cláusulas pensadas para outra legislação costumam usar instrumentos que, aqui, precisam de outro desenho: opções de compra de quotas no lugar de ações, por exemplo, ou um conselho de administração numa sociedade que não o tem.

Os erros mais comuns de quem assina um modelo pronto

Erro, Por que é um problema
ErroPor que é um problema
Acordo que contradiz o contrato socialPerante a sociedade e terceiros, prevalece o contrato social registrado
Exclusão de sócio prevista só no acordoA exclusão por justa causa sem passar pelo Judiciário exige previsão no contrato social (art. 1.085)
Divisão desproporcional de lucros só no acordoDepende de estipulação expressa no contrato social (arts. 997, VII, e 1.007)
Critério de valor vago"Valor patrimonial" ou "valor justo" sem método viram discussão na hora da saída
Não concorrência sem limite de atividade, território ou prazoCláusulas amplas demais tendem a ser questionadas e podem não se sustentar
Sucessão em brancoVale a regra geral: a quota é liquidada e paga em 90 dias
Nenhum mecanismo de impasseCom sócios de poder igual, a decisão simplesmente não acontece
Sem regra de adesãoUm novo sócio que não assina o acordo não fica vinculado a ele

A divisão entre o que precisa estar no contrato social e o que fica melhor no acordo está em acordo de sócios e contrato social.

Como usar um modelo sem cair nesses erros

O modelo tem valor como roteiro de perguntas, e não como documento pronto. Uma forma segura de usá-lo:

  1. 1

    Ler o modelo como lista de assuntos

    Cada seção vira uma pergunta que os sócios respondem juntos.

  2. 2

    Responder com números

    Critério de valor, prazos, percentuais, quóruns e metas de vesting, com simulações como a da tabela acima.

  3. 3

    Conferir o contrato social

    O que precisa valer perante a sociedade vai para o contrato social, com alteração registrada na Junta Comercial.

  4. 4

    Escrever os piores cenários

    Saída em conflito, morte, impasse e venda da empresa.

  5. 5

    Definir como o acordo muda

    Quem aprova alterações e como um novo sócio adere.

  6. 6

    Revisar a cada mudança relevante

    Entrada de sócio, aporte, mudança de papéis ou de porte da empresa.

Alguns sinais indicam que o modelo, mesmo bem preenchido, não basta: sócios com papéis muito diferentes, divisão 50/50, investidor a caminho, capital aportado de forma desigual, herdeiros já envolvidos na empresa ou planos de virar S.A.

Um modelo raramente traz opções de compra e de venda sob medida, porque gatilho e fórmula de preço dependem de cada sociedade. O tema está em opção de compra de quotas.

Por onde começar

Se vocês pensam em usar um modelo, ou já assinaram um, vale conferir se as lacunas foram preenchidas com decisões que vocês tomariam hoje. O Diagnóstico de Risco Societário é uma conversa de 60 minutos por vídeo que mapeia a situação da sociedade e aponta os pontos de maior exposição.

Agendar diagnóstico

Para quem prefere um acordo escrito sobre a sociedade de vocês, e não sobre a de outra empresa, o planejamento societário é o passo seguinte.

Este conteúdo é informativo e reflete a legislação vigente na data de atualização. Ele não substitui a análise da situação concreta de cada sociedade.

Perguntas frequentes

Existe uma estrutura que serve para quase todas, porque as seções do documento se repetem. O conteúdo de cada seção, porém, depende dos sócios, do negócio e dos planos da empresa.

Tem. A validade não depende de o texto ser original, e sim de o conteúdo respeitar a lei e ser compatível com o contrato social. O risco do modelo está nas escolhas que ele faz ou deixa de fazer.

Não sem adaptação. O acordo de acionistas é pensado para a S.A., com ações, assembleia geral e regras da Lei das S.A. Na limitada, o acordo trata de quotas e precisa conversar com o contrato social e com o Código Civil.

Regras sobre decisões e quóruns, impasse, remuneração e lucros, entrada e saída de sócios, critério de valor e forma de pagamento, sucessão, não concorrência e solução de divergências.

Não para valer entre os sócios que o assinam. Ele é arquivado na sede da empresa, e as regras de registro permitem arquivar na Junta Comercial apenas a notícia da sua existência, sem expor o conteúdo.

Pode, com a concordância dos signatários, na forma que o próprio acordo prever. O ideal é revisá-lo antes que uma das cláusulas precise ser usada.

Agendar diagnóstico

Estruturar a sociedade começa por entender a que já existe.

Diagnóstico de Risco Societário

Uma conversa de 60 minutos por vídeo em que eu entendo a situação atual, quem são os sócios e onde a empresa está mais exposta hoje.

Ao enviar, a conversa abre no WhatsApp com a sua mensagem já escrita. Eu respondo para combinarmos o horário.

Ao enviar este formulário, você autoriza Gabriel Serafin Advocacia Societária a entrar em contato por email ou WhatsApp para fornecer informações sobre o serviço. Seus dados são tratados conforme a LGPD e compartilhados apenas com os serviços que operam este site e a nossa comunicação. Veja quais na Política de Privacidade.

Gabriel Serafin

Gabriel Serafin

Advogado Societário e Empresarial · OAB/PR 131.160

Gabriel Serafin é advogado (OAB/PR 131.160), formado em Direito pela UDC e pós-graduando em Direito Empresarial pela PUC-RS. Antes da advocacia, passou cinco anos no mercado, em vendas, marketing digital e estratégia de negócios. Hoje concentra a atuação em direito societário e empresarial, com atendimento online para empresas de todo o Brasil.

Mais sobre a trajetória