Em resumo
Numa venda da empresa, as suas opções podem ter destinos diferentes, conforme o plano: ser aceleradas, total ou parcialmente; ser exercidas no fechamento, com as ações vendidas na mesma operação; ser pagas em dinheiro, pela diferença entre o preço da venda e o preço de exercício; ser substituídas por opções ou ações da compradora; ou ser canceladas, com ou sem pagamento. O que você recebe depende dessas regras, do preço de exercício, das preferências dos investidores e das condições de pagamento da venda.
Três perguntas sobre o seu caso
Antes das perguntas
De que lado do plano de stock options você está?
A venda é o evento que costuma transformar participação em dinheiro, e por isso é o momento em que o plano é testado de verdade. Regras escritas antes tornam a venda previsível para o beneficiário. Regras ausentes transferem a decisão para a negociação entre os sócios e o comprador, e quem tem opções costuma estar fora da mesa.
Este artigo explica os cenários pelo lado de quem recebe as opções. A cláusula de aceleração, em detalhe, está em aceleração de vesting, e a venda pelo lado da empresa em aquisição de startup. A lógica dos planos está em plano de stock options. Se você quer uma segunda opinião sobre o que o seu plano prevê para uma venda, as consultas existem para isso.
Primeiro: o que é uma venda para o seu plano
O plano costuma definir um evento de liquidez ou de mudança de controle, e é essa definição que aciona as regras. Normalmente inclui:
- a venda da maioria das ações ou quotas a um comprador;
- a fusão ou a incorporação da empresa por outra;
- a venda de todos ou quase todos os ativos;
- às vezes, a abertura de capital.
Se a operação não se encaixar na definição, as regras de venda podem não se aplicar, e as opções seguem o cronograma normal. Por isso, a definição importa tanto quanto as consequências.
As opções já adquiridas e as ainda não adquiridas
Numa venda, o plano costuma tratar separadamente dois grupos de opções.
As já adquiridas pelo vesting são suas: você pode exercê-las, nas condições do plano, e participar da venda como acionista, ou recebê-las em outra forma prevista.
As ainda não adquiridas dependem das regras de aceleração. Sem aceleração, o cronograma continua, agora sob o controle do comprador, ou as opções se extinguem, conforme o plano.
Os cenários possíveis
| Cenário | Como funciona | Ponto de atenção |
|---|---|---|
| Aceleração | Parte ou todo o vesting restante é antecipado | Single trigger basta a venda; double trigger exige também o desligamento |
| Exercício no fechamento | Você exerce as opções e vende as ações na mesma operação | O preço de exercício pode ser descontado do valor recebido |
| Pagamento em dinheiro | Você recebe a diferença entre o preço da venda e o preço de exercício, sem exercer | A tributação pode ser diferente da venda de ações |
| Substituição | As opções são trocadas por opções ou ações da compradora | O vesting pode continuar, agora na compradora |
| Assunção do plano | A compradora assume o plano como está | As regras continuam as mesmas |
| Cancelamento | As opções são canceladas, com ou sem pagamento | Sem pagamento, só é aceitável para opções sem valor |
O plano pode prever um ou mais desses cenários, e às vezes deixa a escolha para os órgãos da empresa, dentro de limites. O que importa é saber quais estão previstos e quem decide.
Aceleração: single e double trigger
Single trigger: a venda, por si, acelera o vesting restante, total ou parcialmente.
Double trigger: a aceleração só acontece se, depois da venda, você for desligado sem justa causa ou sair por um motivo relevante definido no plano, dentro de um período também definido.
Para o beneficiário, a definição de motivo relevante costuma valer tanto quanto o percentual acelerado: sem ela, a função pode ser esvaziada até a pessoa pedir para sair, e a aceleração não se aplica. O detalhe está em aceleração de vesting.
Quanto você recebe: preço, preferências e retenções
O valor que chega ao beneficiário depende de quatro fatores.
O preço por ação na venda. É a referência para calcular o que as suas opções valem.
O preço de exercício. Você recebe a diferença entre o preço por ação e o preço de exercício. Se o preço da venda for menor que o preço de exercício, as opções estão fora do dinheiro e não valem nada. O critério de preço está em preço de exercício.
As preferências dos investidores. Em startups, investidores costumam ter ações com preferência de liquidação: numa venda, recebem primeiro, até determinado valor, antes das ações comuns. Dependendo do preço, essa preferência pode reduzir muito o que chega às ações comuns, inclusive às que você receberia pelo exercício. As condições aparecem no term sheet.
As condições de pagamento da venda. Parte do preço pode ficar retida por um período para cobrir contingências, ou depender de metas futuras. O plano deve dizer se as opções acompanham essas condições, recebendo proporcionalmente quando os valores forem liberados.
Um exemplo com preferência de liquidação
Os números abaixo são hipotéticos e simplificados, só para mostrar o efeito da preferência. Consideram uma preferência de uma vez o valor investido, sem participação adicional.
Um investidor aplicou R$ 10 milhões e ficou com 25% da empresa, com preferência de receber de volta o valor investido numa venda, antes das ações comuns. A empresa é vendida por R$ 15 milhões.
Se o investidor convertesse suas ações em comuns, receberia 25% de R$ 15 milhões, ou R$ 3,75 milhões. Com a preferência, ele recebe R$ 10 milhões. Sobram R$ 5 milhões para as ações comuns, que representam 75% do capital.
Para um beneficiário com opções equivalentes a 1% do capital total, a diferença é grande: sem a preferência, 1% de R$ 15 milhões seria R$ 150 mil; com a preferência, ele recebe a sua parte dos R$ 5 milhões destinados às ações comuns, cerca de R$ 66,7 mil, antes de descontar o preço de exercício.
O exemplo mostra por que as preferências dos investidores precisam entrar em qualquer estimativa do que as opções valem numa venda.
O critério de avaliação importa
Quando a venda não é uma operação simples, por exemplo quando envolve pagamento em ações da compradora, reorganizações ou avaliações internas, o critério usado para definir quanto vale cada ação pode virar disputa.
Um caso público ilustra o risco: nos Estados Unidos, a disputa entre fundadores do Tinder e o grupo controlador sobre a avaliação usada para as opções terminou, em 2021, num acordo de US$ 441 milhões. A lição para o beneficiário é conferir, antes de qualquer venda, qual critério o plano usa para definir o valor das ações em cada evento.
O que você pode ser chamado a assinar
Numa venda, os beneficiários costumam receber documentos para assinar, como termos de exercício, adesões às condições da venda, cessões das ações e, às vezes, declarações sobre a quantidade de opções e ações que detêm.
Leia com atenção antes de assinar, principalmente documentos que declarem que você não tem mais nada a receber do plano, que alterem as regras de pagamento ou que tragam novas obrigações, como restrições de atuação depois da venda. E confira os prazos: operações de venda costumam ter calendário apertado.
Drag along: você pode ser obrigado a vender
Se você já é acionista, pelo exercício de opções, o acordo de acionistas pode prever o drag along: a obrigação de vender junto quando a maioria aceita uma proposta pela empresa inteira. Em contrapartida, o tag along pode assegurar o seu direito de vender junto, nas mesmas condições, quando o controlador vende.
O que conferir: se o preço é o mesmo para todas as classes de ações e quais condições acompanham a venda. As regras estão em tag along e drag along, e as demais cláusulas do plano em cláusulas do plano de opções.
Parte do preço retida ou condicionada
Em muitas vendas, o comprador não paga tudo no fechamento. Uma parte fica retida por um período, para cobrir contingências, e outra pode depender de metas futuras da empresa vendida.
Para o beneficiário, a pergunta é se as opções acompanham essas parcelas. Um plano bem escrito prevê que os beneficiários recebam proporcionalmente quando os valores retidos forem liberados e quando as metas forem atingidas. Sem regra, os beneficiários podem receber só sobre a parcela paga no fechamento.
Quando a venda é paga em ações da compradora
Se a compradora paga, total ou parcialmente, com as próprias ações, as opções costumam ser substituídas por opções ou ações da compradora. Três pontos merecem atenção: o critério de troca, que define quantas opções da compradora correspondem às suas; o vesting, que pode continuar na compradora; e as novas regras, porque você passa a estar sujeito ao plano e às restrições da compradora. A troca também pode ter efeitos tributários próprios, a avaliar com o contador.
A tributação na venda
Venda das ações recebidas pelo exercício. Em plano de sociedade anônima brasileira com natureza mercantil, o ganho na venda das ações é tributado como ganho de capital, de acordo com o Tema 1226 do STJ. O detalhe está em tributação de stock options.
Pagamento em dinheiro, sem exercício. Quando as opções são pagas em dinheiro, pela diferença de valor, não há compra de ações com risco pelo beneficiário, e o pagamento pode receber leitura diferente da venda de ações, inclusive como remuneração. É um ponto a avaliar com o contador na estruturação da venda.
Plano de holding estrangeira. A venda segue as regras de aplicações no exterior, explicadas em stock options de empresa estrangeira.
O plano da compradora
Quando as opções são substituídas por opções ou ações da compradora, você passa a estar sujeito ao plano dela. Vale perguntar à empresa, antes do fechamento: qual será o critério de troca, se o cronograma de vesting será mantido, quais regras de saída passarão a valer, se haverá aceleração em caso de desligamento depois da venda e quais restrições de venda se aplicam às ações da compradora. Essas respostas costumam estar nos documentos da operação e merecem ser lidas com a mesma atenção que o plano original.
Se você já saiu da empresa
Se você saiu antes da venda, o que acontece depende do que fez com as opções:
se exerceu dentro do prazo,
você é acionista e participa da venda como tal, conforme as regras de venda conjunta;
se as ações foram recompradas na saída,
você já recebeu o valor da recompra, salvo se o acordo previr ajuste de preço para vendas próximas;
se não exerceu no prazo,
as opções se extinguiram.
A decisão de exercer ao sair está em quando exercer stock options.
Perguntas para fazer antes de uma venda
- 1
Como o plano define o evento de venda?
- 2
Há aceleração? Single ou double trigger? O que conta como motivo relevante?
- 3
Quais cenários o plano prevê para as opções: exercício, pagamento, substituição ou cancelamento?
- 4
Qual critério define o valor das ações na venda?
- 5
Há preferências de liquidação de investidores, e qual o efeito delas sobre as ações comuns?
- 6
As opções acompanham parcelas retidas ou condicionadas do preço?
- 7
Quais documentos precisarei assinar, e em que prazo?
Erros comuns
Descobrir as regras de venda só quando a venda acontece
Ignorar as preferências dos investidores
ao estimar quanto vai receber.
Assinar documentos da venda sem ler,
inclusive declarações de quitação.
Perder o prazo de exercício
num calendário de fechamento apertado.
Achar que todo pagamento na venda tem a mesma tributação
Esquecer as parcelas retidas ou condicionadas
do preço.
Próximo passo
O que acontece com as suas opções numa venda depende das regras do plano, das preferências dos investidores e das condições da operação. Se você quer uma segunda opinião sobre o que o seu plano prevê, as consultas existem para isso.
Este conteúdo é informativo e reflete a legislação vigente na data de atualização. Ele não substitui a análise da situação concreta de cada sociedade.
Perguntas frequentes
Depende do plano. Com single trigger, a venda basta; com double trigger, é preciso também o desligamento sem justa causa ou a saída por motivo relevante depois da venda. Sem regra de aceleração, o cronograma continua ou as opções se extinguem, conforme o plano.
Pode, se o plano previr. O cancelamento sem pagamento costuma ser aceitável apenas para opções sem valor. Para opções com valor, os planos costumam prever exercício, pagamento em dinheiro ou substituição.
A diferença entre o preço por ação na venda e o seu preço de exercício, multiplicada pelas opções que puder exercer, considerando as preferências dos investidores e as condições de pagamento da venda.
As opções estão fora do dinheiro: exercê-las significaria pagar mais do que as ações valem. Nesse caso, elas não geram valor.
Não necessariamente. Sem compra de ações com risco pelo beneficiário, o pagamento pode receber leitura diferente, inclusive como remuneração. É um ponto a avaliar na estruturação da venda.
Se já for acionista e o acordo previr drag along, sim, quando a maioria aceitar uma proposta pela empresa inteira. Vale conferir se o preço é o mesmo para todas as classes.
Depende do plano. As opções podem acompanhar a parcela retida, recebendo proporcionalmente quando os valores forem liberados, ou ser pagas só pela parcela à vista.
Se exerceu as opções dentro do prazo e continua acionista, sim, conforme as regras de venda conjunta. Se as ações foram recompradas na saída, você já recebeu o valor da recompra, salvo previsão de ajuste de preço. Se não exerceu no prazo, as opções se extinguiram.
É o direito de alguns investidores de receber primeiro numa venda ou liquidação da empresa, normalmente até o valor que investiram, antes das ações comuns. Dependendo do preço da venda, ela pode reduzir bastante o que chega aos beneficiários de opções.
O espaço de negociação do beneficiário numa venda costuma ser pequeno, porque as regras do plano já estão definidas. Ainda assim, pessoas-chave que o comprador quer manter costumam receber propostas de retenção, e esse é o momento de conversar sobre aceleração, novas outorgas e condições de permanência.
Podem, se o plano ou a operação previr a substituição. Nesse caso, o critério de troca define quantas opções da compradora correspondem às suas, e as regras do plano da compradora passam a valer.
Gabriel Serafin